Theresia: Dear Emile [Preview]

Querida Emile…

E aí, todo mundo curtindo o Halloween? A equipe do Neruki-ya certamente está! Em comemoração a data, apresento a vocês, queridos leitores, mais um jogo de terror/survival para aqueles que desejam curtir a noite a la mode. Dessa vez, um título consideravelmente desconhecido e bastante peculiar: Theresia: Dear Emile, ou apenas Theresia para os mais íntimos. Publicado em 2008 pela Aksys Games  (999: Nine Hours Nine Persons Nine Doors) e desenvolvido pela WorkJam, Theresia chama a atenção por ser um dos poucos títulos adultos, classificado para idades maiores de 15 anos, para o Nintendo DS e DSi. À época de lançamento, o título não impressionou a grande massa — o que não é propriamente raro em se tratando de jogos que sobrepõe historia a gameplay e gráficos — e caiu na obscuridade. Injustiça? Isso depende. Theresia de certo não é um jogo para as massas — direcionado para um público bastante específico, o título possui certas particularidades que só bons apreciadores de historias podem de fato contemplar. São esses apreciadores — e considero-me parte desta estirpe — que verão em Theresia mais do que um bom jogo, uma historia perturbadoramente bela sobre a mais obscura forma de amor: o obsessivo.

Cheirava a sangue… era vermelha como sangue…

Theresia começa com o despertar de uma jovem em um quarto escuro e soturno. Ela, como de praxe, de nada se lembra; nem ao menos de seu nome, ou de seu rosto. Esta jovem é a protagonista, e o jogador toma controle dela logo ao fim da cena inicial. Você, por ver o mundo com os olhos dela, sabe tanto sobre ela quanto ela mesma — ou seja, não sabe nada. Não sabe qual sua aparência ou onde está — sabe, entretanto, que este lugar não é seguro e que terá de encontrar alguma saída o quanto antes; perigosas armadilhas espreitam cada canto do que ela descobre, ao sair do quarto, ser apenas o porão de um complexo enorme, abandonado e sombrio. Sua única dica, a palavra “Theresia”, escrita com o que parece ser sangue em uma folha de papel. Sua única esperança, evitar as perigosas armadilhas que a cercam, meticulosamente escondidas, e ascender para sua prometida liberdade. E, no meio de tudo isso, fragmentos de memórias perdidas, espalhados pelos corredores e quartos que aguardam sua visita, esperando para serem recuperados.

Maylee, você acredita no amor…?

Theresia possui duas diferente formas de jogabilidade: exploração e investigação. No modo de exploração, o jogador locomove-se pelos corredores 3D que formam o complexo em que a confusa protagonista está presa. Neste modo, ícones aparecem sobre objetos com que o jogador pode interagir, como portas. Para interagir com esses ícones, basta tapeá-los com o stylus. Também é possível andar com o stylus, tapeando as setas na tela sensível para indicar a direção. Sempre que o jogador entrar em um quarto, o modo automaticante muda para investigação — neste modo, o jogador deve explorar uma bela ilustração do quarto em que tiver entrado para encontrar itens e resolver puzzles. Embora neste modo o jogador não possa mover-se, ele é muito mais interativo do que o modo de exploração: a protagonista pode olhar, tocar, e usar itens que já tenha em seu inventório em si mesma.  Para olhar e tocar, basta arrastar, com o stylus, os ícones em forma de olho e mão do menu para o local da ilustração que deseja-se investigar. Para usar itens, basta arrastá-los do inventório para o ícone em forma de um perfil feminino entre a barra de vida e os ícones em forma de olho e mão, no menu. Pode soar confuso, mas de fato, não é. Em ambos os modos, o jogador conta com um mapa do andar em que estiver na tela superior do DS. Interessante notar que, embora todas as ações possam ser realizadas com o stylus, podem ser, também, realizadas com os botões do DS.

Amor…? Não fale besteiras.

Mas este não é um jogo de pura exploração. Bem, é, mas com um porém: armadilhas. Armadilhas são a grande alma da gameplay de Theresia, por assim dizer. Você encontrará armadilhas apenas no modo de investigação, mas a quantidade em que elas aparecem fazem este “apenas” pouco valer. Todos os quartos do complexo que você explora durante o jogo estão armados até a boca com armadilhas de todos os tipos — maçanetas eletrizadas, gavetas cheias de agulhas pontiagudas, o objeto mais inocente pode provar-se uma experiência dolorosa. Olhar antes de tocar ajuda, mas faz pouco: detectar armadilhas não é o forte da encurralada protagonista. Você possui uma barra de vida, disposta no menu; algumas armadilhas tiram muita vida, outras pouca, mas apalpar seus arredores cegamente certamente não trará à protagonista sua almejada liberdade. Ou sim, de certa forma — quando a barra de vida se esgotar, será Game Over para você e a jovem que controla. Qual a solução, neste caso? Ao decorrer do jogo, você encontrará itens escondidos nos quartos que explorar que lhe serão muito úteis: elixires, para recuperar vida, e 2×4, pedaços de madeira com que a protagonista pode cutucar cantinhos que você acredite serem suspeitos e, dessa forma, detectar armadilhas escondidas (os 2×4 se quebram e são descartados após cada uso). Estes itens são, porém, bastante limitados; o jogo quer que você explore, mas também quer que você pense: nem todos os puzzles são óbvios, muitos são difíceis e outros tantos fazem pouco sentido, mas vários podem ser completados com pura lógica. Se não souber o que fazer em seguida e precisar de uma ajudinha, pode usar o amuleto da protagonista, disposto no inventário logo ao início do jogo: use-o nela e receba uma dica sobre o curso de ação. Ah, a propósito — há muito backtracking, e o complexo é de fato enorme… você não voltará a jogar este jogo tão cedo após completá-lo.

Mesmo se eu matar você…

Mas gameplay não é, definitivamente, o que Theresia faz de melhor. Mais do que libertar a protagonista de um lugar terrível, o verdadeiro objetivo do jogo é colecionar suas memórias perdidas e pagar sangue como preço por elas. Páginas de diários de diferentes pessoas estão espalhadas por todo o complexo, e cada uma delas despertará fragmentos de um passado dormente na jovem que você controla. O jogo é todo construído com palavras, acima de tudo, e isso não aplica-se apenas à história principal — cada diferente interação, seja ela simples ou complexa, é seguida de um texto detalhado descrevendo as ações e sentimentos da protagonista. Ler todo o conteúdo textual do jogo é importantíssimo para apreciá-lo de fato. E há muito, muito conteúdo textual — estimo 15 horas de jogo para um jogador de primeira viagem. Isso sem contar o conteúdo bônus, é claro, ao qual o jogador ganha acesso depois de completar o jogo uma primeira vez; parte desse conteúdo bônus é um segundo jogo que se estabelece individualmente e tem inclusive um nome próprio — Theresia: Dear Martel — mas que não deixa de ser um apêndice do primeiro. Dear Martel usa a mesma mecânica de Dear Emile, mas personagens e cenários não são os mesmos. Este jogo é, entretanto, muito mais curto que o primeiro, e a historia tem muito menos força — ela serve, entretanto, como uma base que molda e dimensiona o universo da primeira.

Você pertencerá a mim… para sempre…

Eu gosto de Theresia. Gosto mesmo. A atmosfera sombria, as belas imagens — Theresia é um jogo artesanal e muito bonito. E a historia, tecida pelas delicadas relações entre personagens frágeis e complexas, assombra e encanta aqueles que param para de fato escutá-la — que apreciam suas nuances, suas minúcias. O elemento “terror” de Theresia transcende os sustos baratos e os elementos sobrenaturais — o sentimento depressivo e sufocante, quase claustrofóbico, que paira sobre o jogador pela duração do jogo, é o que verdadeiramente dá ao título o direito de sustentar essa classificação. Se o seu estilo de survival for algo paralelo a títulos que seguem a linha Resident Evil de terror, passe longe de Theresia. Se você for do tipo que acha textos em jogos um aborrecimento — ou, para ilustrar, se até hoje você não faz ideia o que cargas d’água o Professor Carvalho diz na introdução de Pokémon Red/Blue/Green/Yellow — igualmente. Mas se você, assim como eu, aprecia o valor de uma boa historia… dê uma chance a Theresia. Se persistir, garanto que será bem recompensado/a.

Por Rika

Feliz Halloween!

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